Crónicas sobre a captura do poder, a fabricação da obediência e o comércio da esperança
Francisco Gonçalves
Edição digital — Fevereiro de 2026
Este livro nasce de apontamentos escritos ao longo de anos, em dias de lucidez e de raiva — duas irmãs que, quando bem tratadas, produzem pensamento.
Não é um tratado académico, nem pretende fingir neutralidade. É uma crónica moral. Uma tentativa de nomear mecanismos que se repetem: a captura do poder, a anestesia do ensino, o comércio das ilusões.
Se houver aqui dureza, que seja do lado da justiça. Se houver poesia, que sirva apenas para abrir caminho à verdade. E se houver esperança, que não seja narcótico — mas disciplina.
Alguns textos foram retrabalhados em registo editorial. Mantive, porém, a voz e a intenção: incomodar a mentira, porque a verdade, quando é honesta, pode curar.
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Apoio editorial e revisão de estilo: Augustus
Prólogo — O País na Véspera de Si Mesmo
PARTE I — A Roda
1. Portugal, Roda Viciada: Um País Entre Rifas e Rifões
2. Os Mesmos de Sempre: A Gramática do Favor
3. A Economia do 'Desenrasca': Quando o Mérito é Suspeito
4. Justiça Lenta: A Violência do Carimbo
5. Habitação e Dignidade: A República do Inacessível
PARTE II — A Escola
6. Portugal e o Ensino da Iliteracia: Quando a Escola Falha
7. Iliteracia Funcional: Ler sem Compreender, Votar sem Pensar
8. A Universidade Livre: Plano Prático de Auto-Formação
9. A Juventude em Modo de Fuga: Emigração e Futuro Roubado
PARTE III — A Ilusão
10. A Política como Comércio de Ilusões (inspirado em Cândido Ferreira)
11. O Exército da Normalidade: Ruído, Carimbo e Anestesia
12. Técnica, Medo e Obediência: A Engenharia da Percepção
13. Media e Tribos: A Fábrica de Reacções
Epílogo — Portugal Sem Futuro Enquanto a Mentira For Conforto
Apêndice — Recursos, Leituras e Exercícios de Lucidez
Nota em Memória de Cândido Ferreira
Há países que acordam. Outros aprendem a dormir de olhos abertos. Este livro é um esforço para acordar o que ainda resiste.
Um país não se perde apenas por pobreza. Perde-se por hábito. Por repetição. Por uma forma de aceitar o inaceitável como se fosse meteorologia.
Durante décadas, fomos educados para confundir prudência com medo e civismo com submissão. A verdade, quando exige mudança, parece agressiva; a mentira, quando oferece sofá, parece paz.
Estas páginas não pretendem humilhar um povo. Pretendem resgatar a sua dignidade. A crítica, quando é honesta, é uma forma de amor severo: recusa-se a ver definhar aquilo que poderia florescer.
Chamo-lhes crónicas, porque não são lições; são retratos. Retratos de uma roda viciada, de uma escola cansada e de uma política que aprendeu a vender ilusões como quem vende bilhetes para um espectáculo onde o público paga duas vezes: com dinheiro e com futuro.
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
‘Dizem que é roda da sorte. Mas é sorte viciada: o prémio vai sempre para os mesmos.’ (FG, 31 Dez 2013)
O meu país — sem culpa — parece por vezes uma roda gigante entre rifas e rifões: um espectáculo de luzes, onde o ruído serve para esconder a engrenagem.
Chamam-lhe 'roda da sorte', mas é sorte programada. A agulha pára com demasiada frequência na mesma casa. O prémio tem morada, apelido e carteira de contactos.
A roda gira e produz vertigem, não futuro. E a vertigem é útil: quem está tonto não mede distâncias, não calcula perdas, não exige contas.
Um sistema viciado não precisa de violência aberta; precisa de rotina. A rotina faz o trabalho sujo da dominação com luvas limpas.
Os mesmos de sempre não são apenas pessoas. São redes: favores trocados, cargos alternados, portas giratórias, comissões discretas, contratos opacos.
O povo paga o bilhete e ainda agradece a música, porque aprendeu a confundir entretenimento com governo.
Há um instante decisivo: quando alguém diz 'não jogo mais'. Esse gesto é pequeno, mas tem implicações sísmicas.
A roda começa a falhar quando a lucidez se torna contagiosa: quando se aprende a perguntar quem ganha, quanto ganha, e quem perde o quê.
Nenhum sistema resiste muito tempo a cidadãos que leem, comparam, e não se deixam comprar por migalhas emocionais.
Perguntas simples, como chaves: Que decisões públicas beneficiam sempre os mesmos interesses? Que promessas aparecem a cada ciclo e nunca se cumprem?
Que palavras repetidas servem para adiar o essencial: 'inevitável', 'complexo', 'gradual', 'não há alternativa'?
Escreva três exemplos concretos da sua vida em que a burocracia substituiu a justiça, e pergunte-se: quem ganha com isso?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
‘Não há pensamento onde não há liberdade.’ (Miguel Torga, 1949)
Em Portugal, o favor é uma língua paralela. Quem a fala, sobe. Quem a recusa, fica à margem e ainda é acusado de 'não saber viver'.
O favor dispensa mérito: substitui a competência por pertença. E como toda a língua viva, aprende-se cedo — na escola, no emprego, no café.
A meritocracia, quando aparece, surge como slogan publicitário; no terreno, é frequentemente tratada como insolência.
O poder muda de sala, não muda de natureza. Sai de um gabinete, entra numa administração; sai de um conselho, entra noutro.
A memória pública é curta porque é atacada diariamente: com escândalos em série, distrações, indignação descartável.
Um povo exausto deixa de exigir justiça; pede apenas descanso. E é aí que o sistema ganha.
Nomear é o primeiro acto de resistência. Quando o favor é reconhecido como corrupção cultural, perde parte do seu encanto.
Transparência radical: regras claras, dados públicos, contratos legíveis, auditorias reais. A luz não resolve tudo, mas impede a festa no escuro.
E, sobretudo, reputação: quem beneficia do favor deve ser socialmente responsabilizado, não celebrado como 'esperto'.
Faça uma lista de situações em que já viu a expressão 'ele tem cunhas' ser dita com normalidade. O que sentiu?
Que custo colectivo existe quando a competência é ultrapassada pela relação?
Que pequenas recusas pode praticar, sem heroísmo: recusar atalhos, exigir recibos, pedir esclarecimentos por escrito?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
Um país de remendos pode sobreviver; dificilmente pode florescer.
A palavra 'desenrasca' tem charme, mas o charme é uma armadilha. O improviso, quando vira sistema, transforma-se em desculpa para a incompetência.
O país aprende a viver de remendos: planos em PowerPoint, reformas em cartaz, e resultados adiados.
O improviso convém aos que mandam: o caos é terreno fértil para o favor, para o contrato de urgência, para a excepção que vira regra.
Em ambientes degradados, o mérito ameaça. Um competente expõe o atraso, e isso incomoda.
Por isso, o competente é isolado, ridicularizado, ou empurrado para fora. O sistema prefere o obediente previsível.
A inveja, aqui, não é emoção privada; é política: uma forma de nivelar por baixo e impedir exemplos.
Um país só sai do improviso quando adopta método: planeamento sério, avaliação independente, e punição real para falhas graves.
O método exige tempo e disciplina — duas coisas que o espectáculo detesta.
A saída começa pequeno: em comunidades que criam padrões, em projectos locais bem medidos, em cidadania que não se contenta com slogans.
Que áreas da sua vida sente dominadas pelo improviso institucional (saúde, justiça, educação, habitação)?
Que decisões públicas parecem 'sempre em estudo' e nunca concluídas?
Que pequena ilha de método pode criar: um grupo de leitura, um projecto técnico, uma associação, um boletim local?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
A burocracia é violência lenta: não bate, desgasta.
A lei pode ser instrumento de justiça; também pode ser instrumento de dominação. Tudo depende de como é escrita, aplicada e fiscalizada.
Quando a lei se torna labirinto, o cidadão deixa de ser sujeito e passa a ser número. O número não tem rosto; o rosto não tem defesa.
A justiça lenta é justiça negada. E a demora, muitas vezes, funciona como sentença sem juiz.
O atraso cria um mercado: consultores, intermediários, favores. A dificuldade torna-se moeda.
A complexidade excessiva cria dependência. E a dependência cria silêncio: quem depende, não acusa.
Um direito que exige tempo, dinheiro e energia que o cidadão não tem é um direito decorativo.
O antídoto passa por clareza, prazos, responsabilização, e ferramentas públicas compreensíveis.
Escreva um episódio em que sentiu a burocracia como violência. O que aconteceu?
Que passos simples poderiam ter evitado essa situação?
Que instituições deveriam publicar métricas claras de prazos e qualidade?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
Quando a casa vira luxo, a cidadania encolhe.
A habitação não é apenas telhado: é estabilidade mental, capacidade de planear, dignidade diária.
Quando a casa se torna inacessível, a vida inteira se torna provisória. E um povo provisório não constrói futuro.
O mercado, sem regras, concentra riqueza e dispersa sofrimento.
No meio, as pessoas adiam filhos, adiam vida, adiam tudo.
Regras de construção, licenciamento transparente, oferta diversificada e alternativas sustentáveis podem reduzir custos e acelerar respostas.
Uma política séria de habitação mede resultados em casas habitáveis, não em anúncios.
Que efeitos a crise da habitação tem na sua família, bairro ou cidade?
Que medidas lhe parecem imediatas e exequíveis? Que medidas parecem propaganda?
Que compromisso cívico pode nascer daqui?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
Quando a escola deixa de formar pensamento, passa a fabricar obediência.
Portugal não tem apenas um problema de educação: tem um problema de sentido.
Quando o ensino se reduz a ritual de exames e estatísticas, perde-se a missão civilizacional: formar cidadãos capazes de ler o mundo, questionar o poder e compreender ciência.
A iliteracia funcional é o triunfo do simulacro: parece que se aprende, mas apenas se decora.
Quem lê sem compreender é governável por qualquer charlatão.
A democracia, sem literacia, vira teatro com bilhetes caros.
A dignidade do aluno é roubada quando lhe dizem que 'não dá'.
O mundo abriu bibliotecas inteiras na Internet. Hoje, aprender é um acto de soberania individual.
O desafio muda: já não é acesso; é disciplina, método e tempo.
Que coisas o seu ensino lhe ensinou a temer?
Que competências teve de aprender sozinho?
Se tivesse de escolher uma área para dominar em 12 meses, qual seria?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
A democracia sem literacia é um navio sem bússola — flutua, mas não escolhe rumo.
Iliteracia funcional é a capacidade de decifrar palavras sem alcançar sentido.
Manifesta-se em dificuldade em resumir, avaliar evidências e separar opinião de facto.
A pressa impede verificação. O ruído impede concentração. O medo impede pergunta.
A política explora isto com slogans curtos e culpados fáceis.
Antes de partilhar: 'Quem diz? Com base em quê? Quem ganha com esta narrativa?'.
Escrever uma página por semana sem adjectivos: apenas factos e relações.
Identifique: facto, opinião, inferência.
Reescreva um título sensacionalista de forma neutra.
Liste palavras repetidas em discursos e pergunte o que escondem.
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
O futuro da formação não pede permissão. Pede vontade.
O método é simples: escolher uma área central, estudar com regularidade, produzir notas, e praticar em projecto real.
O objectivo não é certificado; é competência.
Khan Academy: https://www.khanacademy.org/
MIT OCW: https://ocw.mit.edu/
edX: https://www.edx.org/
OpenLearn: https://www.open.edu/openlearn/free-courses
Stanford Online: https://online.stanford.edu/free-courses
Duolingo: https://www.duolingo.com/
30 minutos por dia e um projecto ao fim-de-semana.
Aprender sem produzir é entretenimento.
Que tema escolho? Porquê?
Que projecto farei em 12 meses?
Que métricas humanas usarei?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
Quando o país não oferece horizonte, a juventude transforma o mapa em porta.
A emigração não é apenas escolha individual; é sintoma colectivo.
Quando o mérito é suspeito, o mérito vai-se embora.
Precariedade, salários baixos, habitação inacessível, burocracia e cultura de favor.
Não é apenas dinheiro: é respeito.
O retorno não se compra com campanhas; conquista-se com condições reais.
Começa com justiça, habitação e dignidade laboral.
Que histórias de emigração existem na sua família?
Que condições fariam regressar quem saiu?
Que 'pequenas revoluções' locais poderiam reter talento?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
‘A política transforma-se na arte de vender ilusões na vida terrena, tal como a religião vende ilusões celestes.’
A técnica serve para manobrar objectos e, com a mesma frieza, para manipular pessoas.
Quando a técnica entra na mente, a política torna-se engenharia de percepções.
Não é conspiração. É hábito institucional.
Preferem cidadãos previsíveis a cidadãos lúcidos.
A política degradada vende ilusões terrenas; a religião vende ilusões celestes.
Em terra de 'cegos', basta repetir.
Que promessas lhe venderam?
Que emoções são usadas para o convencer?
Que frase repetida lhe parece uma corrente?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
Não é preciso proibir a verdade; basta cansar quem a procura.
O ruído é a nova censura. Não impede falar; impede ouvir.
A tribo oferece pertença e dispensa prova.
A burocracia sem justiça é violência lenta.
O labirinto é um negócio.
Informação clara, auditoria cidadã, coragem para pedir prova e pedir contas.
A indignação sem empatia vira ressentimento.
Siga o dinheiro.
Escreva um resumo claro.
Converse com discordância sem insulto.
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
Se o desenvolvimento técnico move objectos, também move consciências.
A técnica pode libertar ou aprisionar.
A fronteira raramente é técnica; é ética.
O medo faz aceitar o que, em paz, se recusaria.
Em modo de alarme, o cidadão reage em vez de pensar.
A obediência é apresentada como maturidade; a crítica como inconveniência.
Pensar é um acto de resistência.
Que tecnologias ampliam liberdade?
Que notícias o colocam em medo?
Que gesto pequeno pode praticar esta semana?
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
O que não se compreende, reage-se. E o que se reage, controla-se.
A informação pede contexto. O entretenimento pede emoção.
Quando as notícias viram espectáculo, o cidadão vira público e consumidor.
A tribo exige lealdade emocional e dispensa prova.
Um país tribal perde capacidade de cooperar.
A pergunta útil: o que é verificável?
Discordar sem desprezo é treino de liberdade.
Uma semana sem comentar títulos.
Ler três fontes e comparar.
Criticar uma ideia sem atacar a pessoa.
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
‘Enquanto a mentira for conforto, a verdade será exílio.’ (FG, 26 Jul 2013)
Enquanto, como povo, formos submissos e sempre dispostos a dar credibilidade à mentira, avessos à verdade que incomoda, Portugal não terá futuro.
A mentira oferece sofá; a verdade exige mudança.
Literacia, ética, transparência, compaixão e recusa do favor.
Pequenas comunidades com método a puxar o país para fora da roda.
Três coisas para mudar em si.
Três exigências ao Estado.
Uma acção real para esta semana.
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
Aprender é um acto de liberdade. Repetir é um acto de obediência. Escolha.
Khan Academy — https://www.khanacademy.org/
MIT OpenCourseWare — https://ocw.mit.edu/
OpenLearn — https://www.open.edu/openlearn/free-courses
edX — https://www.edx.org/
Stanford Online — https://online.stanford.edu/free-courses
Duolingo — https://www.duolingo.com/
Semana 1: escrever um resumo neutro de uma notícia e identificar factos/opiniões.
Semana 2: comparar duas fontes sobre o mesmo tema e listar divergências.
Semana 3: ler um relatório público e sublinhar números-chave.
Semana 4: escrever uma carta ao futuro com o que não aceita mais como normal.
Miguel Torga — Diários.
George Orwell — Ensaios.
Hannah Arendt — responsabilidade.
Textos constitucionais e história contemporânea portuguesa.
Use estas páginas para registar exemplos concretos, nomes, datas, dúvidas e conclusões. A lucidez agradece arquivo.
Em memória de Cândido Ferreira — médico nefrologista ligado aos Hospitais de Coimbra, homem de intervenção cívica e escritor.
Não escreveu para agradar. Escreveu para acordar. Que a sua lembrança permaneça como farol: discreto, firme e impossível de comprar.
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Francisco Gonçalves